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satolep sambatown
satolep sambatown
2007

1. Livro aberto
2. Invento
3. Viajei
4. Que horas não são?
5. O copo e a tempestade
6. A zero por hora
7. 12 segundos de oscuridad
8. A ilusão da casa
9. Café da manhã
10. A word is dead
11. Astronauta lírico

 

 

LIVRO ABERTO
Vitor Ramil

Essa cama imensa consumindo a noite
Esse livro aberto como alegoria
O abajur perdido em sua luz
Essa água quieta desejando a sede
O controle girando no ar
A TV remota em sua fantasia
Uma alegria que não vai passar
Se você vier

Esse teto frágil sustentando a lua
Esse livro aberto como uma saída
O tapete e seu plano de vôo
O lençol revolto antecipando o gozo
Essa velha casa de coral
Essa concha muda que o meu sonho habita
A paixão invicta que não vai passar
Se você vier

Esse rádio doido de olhos valvulados
Esse livro aberto como uma sangria
Esse poema novo sem papel
O papel que cabe aos meus sapatos rotos
O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier

Esse quarto agindo à minha revelia
Esse livro aberto como uma indecência
O desejo é um naco de pão
A ilusão exposta em tanto desalinho
Uma tecla insiste em bater
No relógio o tempo é uma saudade tensa
E essa cama imensa que não vai passar
Se você vier

 

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INVENTO
Vitor Ramil

Vento
Quem vem das esquinas
E ruas vazias
De um céu interior

Alma
De flores quebradas
Cortinas rasgadas
Papéis sem valor

Vento
Que varre os segundos
Prum canto do mundo
Que fundo não tem

Leva
Um beijo perdido
Um verso bandido
Um sonho refém

Que eu não possa ler, nem desejar
Que eu não possa imaginar

Oh, vento que vem
Pode passar
Inventa fora de mim
Outro lugar

Vento
Que dança nas praças
Que quebra as vidraças
Do interior

Alma
Que arrasta correntes
Que força os batentes
Que zomba da dor

Vento
Que joga na mala
Os móveis da sala
E a sala também

Leva
Um beijo bandido
Um verso perdido
Um sonho refém

Que eu não possa ler, nem desejar
Que eu não possa imaginar

Oh, vento que vem
Pode passar
Inventa fora de mim
Outro lugar

 

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VIAJEI
Vitor Ramil

Viajei
Ligado num segundo
No seguinte, desliguei
Do que eu ia dizer

Divaguei
Devagarinho, evoluindo
Num carinho teu
Perdido a me perder

Mar adentro, noite afora
Agora, amor
É hora de querer
Dessa vida a proa
Sem sentido, à toa
As ondas de carinho
Levaram as palavras
Mas eu sigo indo
As ondas são caminhos

Já não sei
Do tanto que eu diria
O quanto que me dispersei
Não quero nem pensar

Viajei
Viagem boa
A gente não enjoa de esquecer
Que um dia vai voltar

Mar adentro, noite afora
Agora, amor
É hora de ficar
Nessa vida à toa
Sem sentido a proa

As ondas de carinho
Levaram as palavras
Mas eu sigo indo
As ondas são caminhos

Viajei, viajei
Viajei, viajei

 

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QUE HORAS NÃO SÃO?
Vitor Ramil
Participação especial Kátia B

Que horas não são?
A onda nunca vai quebrar
É sempre a mesma estação
O sol queimando o teu olhar

Deus fez o céu
E pôs a terra pra rodar
Ela empacou no sinal
Do sol brilhando em teu olhar

Que horas não são?
A gente imóvel num cartão postal
Seca e verão
É o sol no teu olhar

Olha pro chão
Um gesto teu e a onda vai quebrar
A terra cruza o sinal
O sol é a desculpa pra chorar

 

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O COPO E A TEMPESTADE
Vitor Ramil

Deixo a tempestade encher o copo
E nem me mexo da cadeira
O copo sobre a mesa
A mesa posta
E cada um no seu lugar
Lágrimas escorrem do teu rosto
Numa queda verdadeira
Claro que são lágrimas, não chuva
Quem sou eu pra duvidar
Tá na cara
Que esse copo é meu
E é minha a tempestade
Tá na cara
Mas não tenho sede
Não quero beber
Deixo a tempestade encher o copo
Deixo transbordar
Deixo que ela leve tudo
Numa inundação
Lá se vão as lágrimas no rio
E cada um de nós no seu lugar
Tá na cara
Que esse copo é meu
E é minha a tempestade
Tá na cara
Mas não tenho sede
Não quero beber

 

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A ZERO POR HORA
Vitor Ramil
Participação especial Jorge Drexler

Entrei na rua Augusta
A cento e vinte graus do chão
Precipitado com a chuva
Mas sem direção
A zero por hora

Entrei com pompa em circunstâncias
Próprias de um verão
Ensolarado em minha mente
Por um sol bufão
A zero por hora

Entrei na rua, a mi me gusta
A bruta inclinação
O mundo visto desse jeito
É uma diversão
A zero por hora

Entrei na rua em minha busca
De consolação
Apaixonado pelas moças
Vindo em profusão
A zero por hora
A zero por hora

Entrei estranho e a jovem guarda
Me estendeu a mão
Pediu meu documento
E eu lhe disse: por que não?
A zero por hora

Entrei na dela
Como em filme de televisão
Pedi: me leva preso agora
No teu coração
A zero por hora

Entrei na rua, a mi me gusta
A bruta inclinação
O mundo visto desse jeito
É uma diversão
A zero por hora

Entrei na rua em minha busca
De consolação
Apaixonado pelas moças
Vindo em profusão
A zero por hora
A zero por hora

Entrei em fria
Mas fervendo em minha ilusão
O amor é muito lindo
A cento e vinte graus do chão
A zero por hora

 

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12 SEGUNDOS DE OSCURIDAD
música: Vitor Ramil
letra: Jorge Drexler

Gira el haz de luz
para que se vea desde alta mar.
Yo buscaba el rumbo de regreso
sin quererlo encontrar.

Pie detrás de pie
iba tras el pulso de claridad
la noche cerrada, apenas se abría,
se volvía a cerrar.

Un faro quieto nada sería
guía, mientras no deje de girar
no es la luz lo que importa en verdad
son los 12 segundos de oscuridad.

Para que se vea desde alta mar…
De poco le sirve al navegante
que no sepa esperar.

Pie detrás de pie
no hay otra manera de caminar
la noche del Cabo
revelada en un inmenso radar.

Un faro para, sólo de día,
guía, mientras no deje de girar
no es la luz lo que importa en verdad
son los 12 segundos de oscuridad.

Para que se vea desde alta mar…

 

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A ILUSÃO SA CASA
Vitor Ramil

As imagens descem como folhas
No chão da sala
Folhas que o luar acende
Folhas que o vento espalha

Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens descem como folhas
Enquanto falo

Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei

As imagens se acumulam
Rolam no pó da sala
São pequenas folhas secas
Folhas de pura prata

Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens se acumulam
Rolam enquanto falo

Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei

As imagens enchem tudo
Vivem do ar da sala
São montanhas secas
São montanhas enluaradas

Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens enchem tudo
Vivem enquanto falo

Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei

 

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CAFÉ DA MANHÃ
D’après Prévert
Vitor Ramil

Ela vem pra mesa de manhã
Põe na taça um pouco de café
Ela pega o leite que eu fervi
E enche a taça tanto quanto der
Sem me falar
Sem me olhar
Põe açucar no leite com café
Mexe bem devagar com a colher
Bebe tudo com a calma que não tem
Não me olha
Não diz nada

Ela esquece o gosto do café
Põe os olhos vagos no jornal
Ela pega a parte que eu já li
E abre como um muro entre nós
Sem me falar
Sem me olhar
Pega e acende um cigarro teatral
Solta anéis de fumaça pelo ar
Bate a cinza com a calma que não tem
Não me olha
Não diz nada

Tudo o que ela quer
É me ver chorar
Mas chorar de manhã
É tão fácil
Eu quero é mais

Ela sai da mesa do café
Põe no espelho a cara e se acha bem
Ela veste um lance pra sair
E por cima a capa que eu dei
Sem me falar
Sem me olhar
Abre a porta num gesto natural
Olha a rua, olha as horas, olha o céu
Sai na chuva com a calma que não tem
Não me olha
Não diz nada

Tudo o que ela quer
É me ver chorar
Mas chorar de manhã
É tão pouco
O que eu quero é mais

 

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A WORD IS DEAD
música: Vitor Ramil
poema: Emily Dickinson

A word is dead
When it is said
Some say
I say
It just begins
To live
That day

 

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ASTRONAUTA LÍRICO
Vitor Ramil

Vou viajar contigo essa noite
Conhecer a cidade magnífica
Velha cidade supernova
Vagando no teu passo sideral

Quero alcançar a cúpula mais alta
Avistar da torre a via-láctea
Sumir ao negro das colunas
Resplandecer em lâmpadas de gás

Eu, astronauta lírico em terra
Indo a teu lado, leve, pensativo
A lua que ao te ver parece grata
Me aceita com a forma de um sorriso
Eu, astronauta lírico em terra
Indo a teu lado, leve, pensativo

Quero perder o medo da poesia
Encontrar a métrica e a lágrima
Onde os caminhos se bifurcam
Flanando na miragem de um jardim

Quero sentir o vento das esquinas
Circulando a calma do meu íntimo
Entre a poeira das palavras
Subir na tua voz em espiral

Eu, astronauta lírico em terra
Indo a teu lado, leve, pensativo
A lua que ao te ver parece grata
Me aceita com a forma de um sorriso
Eu, astronauta lírico em terra
Indo a teu lado, leve, pensativo

Vou viajar contigo essa noite
Inventar a cidade magnífica
Desesperar que o dia nasça
Levado em teu abraço sideral

Eu, astronauta lírico em terra
Indo a teu lado, leve, pensativo

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