discos

 

tambong
tango
1987/1996

1. Sapatos em Copacabana
2. Mais um dia
3. Virda
4. Joquim
5. Passageiro
6. Nada a ver
7. Nino Rota no sobrado
8. Loucos de cara

 

 

SAPATOS EM COPACABANA
Vitor Ramil

Caminharei os meus sapatos em Copacabana
Atrás de livro algum pra ler no fim de semana
Exercitar aquela velha ótica sartreana
Vendo o maxixe falso da falsa loira falsa bacana

O mendigo ensaia o passo lento um carro avança

Sei que não tenho idade
Sei que não tenho nome
Só minha juventude
O que não é nada mal

(escreverei os meus sapatos na tua idéia
escreverei os meus sapatos na tua postura
escreverei os meus sapatos na tua cara
escreverei os meus sapatos no teu verbo
escreverei os meus sapatos nos teus
Copacabana)

Regressarei os meus sapatos por Copacabana
Na mão direita o sangue de uma história italiana
Escorregar um tango numa casca de banana
Quando cair só vou lembrar da tua risada sacana

O polícia esquece a mão suspensa um carro avança

Sei que não tenho idade
Sei que não tenho nome
Só minha juventude
O que não é nada mal

(as negras pupilas do verso dilatam)
(os automóveis jorram de um piano)
(as negras pupilas do verso dilatam)
(os automóveis jorram de um piano)

 

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MAIS UM DIA
Vitor Ramil

SEMPRE ACORDO COM A LUZ DO DIA
COM O SOL LAMBENDO A MINHA PELE
DEPOIS ANDO TONTO PELA CASA
VAI SER MAIS UM DIA DAQUELES
O JORNAL HÁ MUITO NÃO ME IMPORTA
AS NOTÍCIAS SEMPRE SÃO AS MESMAS
ROLA UM PAPO TROUXA EM CADA BOCA
VAI SER MAIS UM DIA DAQUELES
SOU MILHÕES DE CARAS
QUE NÃO SE ABALAM
JAMAIS SE INQUIETAM
EMBORA SAIBAM
QUE DE OUTRO JEITO
O DIA SERIA MELHOR
MAIS UM DIA QUEM SABE EU SAIO PRA RUA
MAIS UM DIA QUEM SABE EU VOU PRO TRABALHO
MAIS UM DIA QUEM SABE EU FICO NA CAMA
MAIS UM DIA QUEM SABE EU NÃO FAÇO NADA
A CENSURA COME NO MEU PRATO
O MINISTRO EMPRESTA GARFO E FACA
NOVELHACAREPUBLISCANGALHO
VAI SER MAIS UM DIA DAQUELES
O CRUZADO CRIA NOVOS SANTOS
SANTOS QUE RESISTEM SATISFEITOS
NOVOS QUE RESISTEM SEM PASSADO
VAI SER MAIS UM DIA DAQUELES
SOU MILHÕES DE CARAS
QUE NÃO SE ABALAM
JAMAIS SE INQUIETAM
EMBORA SAIBAM
QUE DE OUTRO JEITO
O DIA SERIA MELHOR
MAIS UM DIA QUEM SABE EU SAIO PRA RUA
MAIS UM DIA QUEM SABE EU VOU PRO TRABALHO
MAIS UM DIA QUEM SABE EU FICO NA CAMA
MAIS UM DIA QUEM SABE EU NÃO FAÇO NADA
MAIS UM DIA QUEM SABE EU FICO NA CAMA
MAIS UM DIA QUEM SABE EU NÃO FAÇO NADA

 

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VIRDA
Vitor Ramil

archei a palarvra virda
crarvada nar trua crara
parlavra virda escrisita
crarvada nar trua almar

crom vida escrevermos artre
srem erla ningrém craminha
sorb or chapréu

Archei a palarvra virda!

 

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JOQUIM (Joey)
Bob Dylan / Jacques Levy
Transcriação Vitor Ramil
Baseado na vida de Joaquim Fonseca


Satolep
Noite
No meio de uma guerra civil
O luar na janela não deixava a baronesa dormir
A voz da voz de Caruso
Ecoava no teatro vazio
Aqui nessa hora é que ele nasceu
Segundo o que contaram pra mim

Joquim era o mais novo
Antes dele havia seis irmãos
Cresceu o filho bizarro
Com o bizarro dom da invenção
Louco, Joquim louco
O louco do chapéu azul
Todos falavam e todos sabiam
Quando o cara aprontava mais uma

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

Muito cedo
Ele foi expulso de alguns colégios
E jurou: “Nessa lama eu não me afundo mais”
Reformou uma pequena oficina
Com a grana que ganhara vendendo velhas invenções
Levou pra lá seus livros, seus projetos
Sua cama e muitas roupas de lã
Sempre com frio, fazia de tudo
Pra matar esse inimigo invisível

A vida ia veloz nessa casa
No fim do fundo da América do Sul
O gênio e suas máquinas incríveis
Que nem mesmo Julio Verne sonhou
Os olhos do jovem profeta
Vendo coisas que só ontem fui ver
Uma eterna inquietude e virtuosa revolta
Conduziam o libertário

Dezembro de 1937
Uma noite antes de sair
Chamou a mulher e os filhos e disse:
“Se eu sumir procurem logo por mim”
E não sei bem onde foi
Só sei que teria gritado a uma pequena multidão
“Ao porco tirano e sua lei hedionda
Nosso cuspe e o nosso desprezo!”

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

No meio da madrugada, sozinho
Ele foi preso por homens estranhos
Embarcaram num navio escuro
E de manhã foram pra capital
Uns dias mais tarde, cansado e com frio
Joquim queria saber onde estava
E num ar de cigarros
De uns lábios de cobra, ele ouviu:
“Estás onde vais morrer”

Jogado numa cela obscura
Entre o começo do inferno e o fim do céu
Foi assim que depois de muitas histórias
A mulher enfim o encontrou
E ele ainda ficou ali por mais dois anos
Sempre um homem livre apesar da escravidão
As grades, o frio, mas novos projetos
Entre eles um avião

O mundo ardia na guerra
Quando Joquim louco saiu da prisão
Os guardas queimaram os projetos e os livros
E ele apenas riu, e se foi
Em Satolep alternou o trabalho
Com longas horas sob o sol
Num quarto de vidro no terraço da casa
Lendo Artaud, Rimbaud, Breton

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

No início dos anos 50
Ele sobrevoava o Laranjal
Num avião construído apenas das lembranças
Do que escrevera na prisão
E decidido a fazer outros, outros e outros
Joquim foi ao Rio de Janeiro
Aos órgãos certos, os competentes
Tirar uma licença

O sujeito lá responsável por essas coisas lhe disse:
“Está tudo certo, tudo muito bem
O avião é surpreendente, já vi
Mas a licença não depende só de mim”
E a coisa assim ficou por vários meses
O grande tolo lambendo o mofo das gravatas
Na luz esquecida das salas de espera
O louco e seu chapéu

Um dia alguém lhe mandou um bilhete decisivo
E claro, não assinou embaixo
“Desiste”, estava escrito, “muitos outros já tentaram
E deram com os burros n´água
É muito dinheiro, muita pressão
Nem Deus conseguiria”
E o louco cansado, o gênio humilhado
Voou de volta pra casa

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

No final de longa crise depressiva
Ele raspou completamente a cabeça
E voltou à velha forma com a força triplicada
Por tudo o que passou
Louco, Joquim louco
O louco do chapéu azul
Todos falavam e todos sabiam
Que o cara não se entregava

Deflagrou uma furiosa campanha
De denúncias e protestos
Contra os poderosos
Jogou livros e panfletos do avião
Foi implacável em discursos notáveis
Uma noite incendiaram sua casa
E lhe deram quatro tiros
Do meio da rua ele viu as balas
Chegando lentamente

Os assassinos fugiram num carro
Que como eles nunca se encontrou
Joquim cambaleou ferido alguns instantes
E acabou caído no meio-fio
Ao amigo que veio ajudá-lo, falou:
“Me dê apenas mais um tiro por favor
Olha pra mim, não há nada mais triste
Que um homem morrendo de frio”

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

 

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PASSAGEIRO
Vitor Ramil

Passos sem direção
Eu ando só
Na madrugada
Preciso te encontrar
Oh, meu amor!
Eu sou teu passageiro
perdido
marginal

A vida me esqueceu
Atrás de alguém
Que não me escuta
Preciso te falar
Oh, meu amor!
Eu sou teu passageiro
perdido
marginal

Não há caminhos que eu deva seguir
Não tenho certeza se vou te encontrar
Grito teu nome
Que o eco me devolve
Em nomes sem sentido

Não há sinais que eu deva seguir
Não tenho uma pista sequer pra te achar
Um junkie cansado
O tempo me consome
Em ondas de desejo

Passos de ilusão
Eu danço só
Na madrugada
Preciso te abraçar
Oh, meu amor!
Eu sou teu passageiro
perdido
marginal

 

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NADA A VER
Vitor Ramil

todo tempo fiquei pensando como não tenho nada a ver com isso
eu jogado no meu canto fico divagando pelo quarto vazio
só preciso da televisão, dos piores programas
sei que são imbecis, nada mal, não importa
a espiral do cigarro corrói as narinas do tempo
gasto meu pensamento a troco de nada

meu juízo vai desenhando falsos quadros falsos na parede
ouço vozes que vêm da rua, automóveis berrando melodias brutais
que não falam de velhas canções, que não falam de novas
nem me deixam mais chique no meu desalinho
anti-herói sem romance, dom quixote chapado
penso em ti mas lembranças são pontes inúteis
talvez eu veja outro canal

a tv é um vício esperto e eu não tenho nada a ver com isso
me interesso por coisas vagas
e o que tenho não passa desse quarto vazio
eu jamais te diria sequer uma frase de efeito
não daria um só passo num tango assombroso
aprendi a te telefonar sem mudar minha imagem
pode crer que eu te esqueço no fim desse filme
talvez eu veja outro canal

 

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NINO ROTA NO SOBRADO
Vitor Ramil

TANGO DA INDEPENDÊNCIA

Percorro à noite a Avenida Independência
Os travestis na esquina fazem-me sinais
Penso na vida, no sentido da existência
E meus sapatos pisam folhas de jornais

Por que não chuto cada poste no caminho
Não apedrejo a sinaleira que me pára
Nas madrugadas em que caminho sozinho
Pensando em nada apenas querendo chegar?

Por que não mudo a minha rota se estou triste
Por que não brota à minha frente a flor do mal
Nem de repente me aborda o dedo em riste
Hercúlea sombra de um violento policial?

Não sei porque já desisti, só quero caminhar
Até que os passos meus me levem a nenhum lugar
Encontrarei então aquilo que perdi
A minha morte que fugiu quando nasci

 

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LOUCOS DE CARA
Kleiton Ramil / Vitor Ramil

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

Não importa
que Deus jogue pesadas moedas do céu
vire sacolas de lixo pelo caminho
Se na praça em Moscou
Lênin caminha e procura por ti
sob o luar do oriente
fica na tua
Não importam vitórias
grandes derrotas, bilhões de fuzis
aço e perfume dos mísseis nos teus sapatos
Os chineses e os negros
lotam navios e decoram canções
fumam haxixe na esquina
fica na tua

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

Não importa
que Lennon arme no inferno a polícia civil
mostre as orelhas de burro aos peruanos
Garibaldi delira
puxa no campo um provável navio
grita no mar farroupilha
fica na tua
Não importa
que os vikings queimem as fábricas do cone sul
virem barris de bebidas no Rio da Prata
M´boitatá nos espera
na encruzilhada da noite sem luz
com sua fome encantada
fica na tua

Poetas loucos de cara
Soldados loucos de cara
Malditos loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Parceiros loucos de cara
Ciganos loucos de cara
Inquietos loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

Se um dia qualquer
tudo pulsar num imenso vazio
coisas saindo do nada
indo pro nada
se mais nada existir
mesmo o que sempre chamamos REAL
e isso pra ti for tão claro
que nem percebas
se um dia qualquer
ter lucidez for o mesmo que andar
e não notares que andas
o tempo inteiro
É sinal que valeu!
Pega carona no carro que vem
se ele é azul, não importa
fica na tua

Videntes loucos de cara
Descrentes loucos de cara
Pirados loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Latinos, deuses, gênios, santos, podres
ateus, imundos e limpos
Moleques loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Gigantes, tolos, monges, monstros, sábios
bardos, anjos rudes, cheios do saco
Fantasmas loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

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